Som sem barreiras - DJ Periférico (Télépathique) no site Saraiva
By urbanjungle on Jul 8, 2010 | In Telepathique

Por Diego Muniz
O extenso currículo denuncia: a versatilidade é a maior arma de Erico Theobaldo. Músico, produtor e DJ, o paulista mantém projetos na cena eletrônica, produz álbuns de artistas da MPB e cria trilhas sonoras para teatro, cinema e minissérie. “Sempre circulei por todas as tribos. O meu interesse, sem preconceito, por todos os aspectos da música é o que me traz oportunidades de trabalhar com diferentes estilos”, revela.
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Antes de se tornar o DJ Periférico, Erico trabalhou como baterista e acompanhou as bandas de Otto, Rita Ribeiro e Zeca Baleiro. “Apesar de tocar o instrumento, o gosto pelo eletrônico estava presente desde o início. No meu kit de palco incluía um sampler e pads eletrônicos”, lembra o DJ.
A decisão de partir para a música eletrônica e discotecar na pista aconteceu depois do convite de André Abujamra para trabalhar no estúdio e fazer trilhas. “Foi o que me abriu as portas para um mundo totalmente novo. Comecei a criar minhas próprias músicas.”
Além das pistas
A projeção internacional do DJ Periférico aconteceu nos palcos, em 2008, com o Telepathique. A parceria com a cantora e compositora Mylene Pires ganhou a Europa e os Estados Unidos com a turnê de lançamento do álbum de estréia Last Time On Earth(Urban Jungle Records). "O mundo está muito interessado na música eletrônica produzida no Brasil. Não precisamos mais colocar banana na cabeça para chamar atenção nem fazer música estereotipada para gringo ver”, comemora o DJ, que prepara o lançamento do segundo álbum para este semestre.
Aqui no Brasil, os créditos do músico aparecem nos álbuns, como produtor, de Zeca Baleiro, Z’África Brasil e Nô Stopa. “Hoje, passo muito mais tempo em estúdio do que no palco ou na pista. Agora, estou fazendo a direção musical do show de lançamento do primeiro álbum da cantora Luisa Maita. Mas gosto de manter o equilíbrio entre estúdio, palco e pista”, finaliza o DJ. Confira a entrevista com Erico Theobaldo.
Qual é sua formação musical?
DJ Periférico. Meu primeiro instrumento foi a bateria. Meu pai tinha uma em casa e no final de semana ele a montava na sala e tocava junto com os discos de jazz dele: Dave Brubek, Miles, Oscar Peterson, Bill Evans. Comecei a imitar, mas tocando com o rádio, ouvindo rock nacional. Era início da década de 1980. Logo nos mudamos para o interior de São Paulo, onde aos 14 anos comecei a tocar numa banda punk. Nem sabia o que era isso, só queria tocar.
Você teve aulas?
DJ Periférico. Voltamos para São Paulo e me matriculei, aos 16 anos, em Percussão sinfônica na Escola Municipal de Música, e depois em Bateria na Fundação das Artes de São Caetano. E fiz Percussão cubana com Mestre Dinho. Tudo com bolsa, não tinha dinheiro para pagar. Uma época fui roadie do Azael Rodrigues, ele me pagava com aulas de bateria. Tinha muita curiosidade e queria conhecer tudo. Estudava violão sozinho em casa.
Quando começou a trabalhar com música?
DJ Periférico. Meu primeiro trabalho foi de roadie do Gueto. Aprendi muito trabalhando nos bastidores. Comecei a tocar profissionalmente aos 17 anos, no Fabrica Fagus, que misturava funk, rock, hip hop, e com o Eno Nomad, que era uma banda que tocava todo tipo de música jamaicana, dance hall, rock steady, dub, zuqui. Vivia tocando no Aeroanta e Dama Xoc. Na época, também tocava em espetáculo de teatro. Fiz parte da montagem de Ham-Let, do Teatro Oficina. Trabalhava também com grupos como Acrobático Fratelli e XPTO.
Qual a importância do Theo Werneck na sua formação?
DJ Periférico. Ele é meu primo e foi minha primeira influência como DJ. Conheci muita música por causa dele. Uma vez ele foi passar uns meses na Europa e deixou todos os discos dele comigo. Sempre cito isso porque foi realmente importante para a minha formação. Chegava da escola e ia para o quarto ficar ouvindo os discos. Tudo do Prince, James Brown, Michael, disco, samba rock, blues. É bom lembrar que na época não tinha internet, google. Tinha que estar muito a fim de conhecer, descobrir.
Quando percebeu que iria trabalhar com música eletrônica?
DJ Periférico. Já no Fábrica Fagus, meu kit no palco incluía um sampler e pads eletrônicos, onde eu disparava vozes, loops. Comecei a usar isso com todo mundo que tocava na época. Chico César, Rita Ribeiro, inclusive no teatro. No Nomad usava também uma bateria eletrônica. O interesse pelo eletrônico esteve presente desde o início. Até que o André Abujamra, grande mestre, me chamou para trabalhar com ele no estúdio, para fazer trilha, publicidade. Foi o que me abriu as portas para um mundo totalmente novo: produção. Pro tools, Logic, dirigir gravação, conversar com diretor. Foi quando comecei a produzir minhas primeiras músicas.
Como foi a transição de instrumentista para DJ?
DJ Periférico. Na produção do primeiro álbum do Z’África Brasil tive meu primeiro contato com os toca-discos. Vendo o DJ Meio-Kilo gravar, percebi que era também um instrumento de percussão e percebi que havia muita facilidade, por ser baterista. Como estava começando a produzir música para pista, tinha necessidade de saber como era a outra ponta. A do DJ que pega uma música já produzida e mistura com outra.
Como surgiu o nome DJ Periférico?
DJ Periférico. Quando comecei a tocar como DJ, levava o Gaspar e o Funk Buia (MCs do Z’África Brasil) para versar. E eles, quando iam me apresentar, rimavam: “DJ Érico, Periférico”. Depois comecei a usar Periférico para assinar os remixes que fazia.
Qual a diferença de tocar em shows (acompanhando um músico) e em uma pista de dança?
DJ Periférico. Acho que a principal é que em uma banda você não está sozinho, tem outras pessoas, e é responsável por um elemento daquela música que está sendo tocada. Tem que estar atento ao que os outros estão tocando e fazer a sua parte. Tem que ter muito ensaio antes. E lembrar de tudo na hora. Se você está acompanhando alguém, não pode chamar mais atenção que o artista. Tem que saber se colocar no contexto. Na pista você está sozinho, todo o som está ali na sua mão e não pode parar. Não pode cair nunca. Show tem mais dinâmica.
E qual a diferença em fazer música para dançar e participar de um trabalho de outro artista?
DJ Periférico. Ao trabalhar com outro artista, gosto de conhecer a fundo o universo dele. Saber de onde ele veio, onde ele está e para onde ele quer ir. Mostrar possibilidades. Tem que acrescentar, sem perder a personalidade dele. Quando você está fazendo o seu próprio trabalho, tem que aplicar tudo isso em você mesmo. Tem que ter autoconhecimento. Parece mais fácil, mas pode não ser.
Você já trabalhou com Stela Campos, Otto e Zeca Baleiro, representantes da nova geração da música brasileira. Por que você acha que a música eletrônica conversa tão bem com a música popular?
DJ Periférico. Esses são exemplos de artistas que estão sempre abertos e atentos a tudo. Não estão limitados, preocupados em representar algum tipo de arte puramente nacional. Isso é bobagem e não existe. Acho que qualquer tipo de música conversa bem com outro, sendo bem-feito. Isso não é uma particularidade apenas da música brasileira. Música eletrônica é música popular, já começa daí.
Você acha que a música eletrônica de alguma forma renovou a velha MPB? O que acha dessa mistura?
DJ Periférico. A “velha MPB” não foi muito além de juntar bossa-nova com drum & bass. Não tanto pela diferença de gerações, mas pela própria natureza das coisas. A MPB gira em torno da canção, da poesia e da melodia, enquanto a música eletrônica é outro tipo de experiência sensorial com a música, é sobre frequências, timbres, grooves, dança. Você tem que ir na pista e ouvir o som batendo, para entender do que se trata. Para a nova geração é mais fácil fazer essa ponte, pois eles conviveram mais com a música eletrônica. Chico Science fazia isso. Ele freqüentava o Hell’s Club.

Hoje, qual o mercado para um DJ?
DJ Periférico. Se você só toca e não produz, o mercado é grande, qualquer lugar onde haja uma pista de dança. Se produz, o mercado aumenta muitas vezes mais. Você vira autor, pode vender suas músicas, sincronizar em filme, games, fazer remixes, mashups, produzir outros artistas. São infinitas possibilidades, a música está muito presente na vida das pessoas e sempre vai estar, independente do formato em que ela é consumida. Hoje, passo muito mais tempo em estúdio do que no palco ou na pista. No final do ano passado assinei minha primeira trilha de longa, para o filme Natimorto, do Paulo Machline. Acabei de fechar uma parceria com o estúdio Ultrassom, para produzir conteúdo, trilhas. Estou estudando Sound Branding. Mas gosto de manter o equilíbrio entre estúdio, palco e pista. Procuro sempre estar tocando também.
Trabalhar com música eletrônica no Brasil é difícil?
DJ Periférico. É complicado trabalhar com música no Brasil. Imagine com música eletrônica. O Brasil é complicado. Para começar, comprar bons instrumentos ou equipamentos sai no mínimo três vezes mais caro para um brasileiro do que para um americano ou europeu. É preciso que se mudem as leis, para diminuir os impostos, criar incentivos. Qualquer artista brasileiro que consegue se destacar e não tenha nascido rico, pode ter certeza de que é um herói, já lutou muito e passou muito aperto para estar ali. É uma realidade. A mídia especializada aqui não percebe muito isso e no geral só fala de você depois de falarem lá fora. É passiva, não te coloca para frente. Tem mentalidade de colonizado ainda.
A música popular tem uma identidade nacional e internacional forte. Você acredita que a música eletrônica também tem?
DJ Periférico. Hoje em dia o mundo está muito interessado na música produzida aqui, mas não só apenas no que é estereotipado. E isso é muito positivo. Não precisamos mais colocar banana na cabeça para chamar atenção. E isso é graças aos muitos produtores brasileiros que estão aí fazendo música eletrônica de ponta.
Qual a diferença da cena eletrônica do Brasil para a gringa?
DJ Periférico. O music business em geral no Brasil é muito desarticulado. Para lançar um álbum direito tem que ter um timing perfeito entre o álbum ficar pronto, as músicas começarem a circular, os clips serem feitos, o trabalho da assessoria de imprensa, a tour de lançamento, uma série de detalhes.
Você é músico, produtor e DJ. Em que momento, e como, você junta todos esses conhecimentos?
DJ Periférico. Sempre. Por exemplo, na hora de fazer um remix ou discotecar, minha experiência como músico ajuda muito a perceber o ritmo, a tonalidade. Se estou produzindo uma música para pista, minha experiência como DJ ajuda a saber se está bom para tocar ou não.
Você acredita que o conhecimento de DJ fez com que aparecessem oportunidades?
DJ Periférico. O que me traz oportunidades é o meu interesse geral por todos os aspectos da música. Sem preconceitos. Se ela é eletrônica, brasileira, para dançar, para ouvir, cantada em inglês, português, isso são detalhes menores. Ser DJ é apenas um aspecto do meu envolvimento com a música. Sempre circulei por todas as tribos. Meu interesse é pela música, pelas pessoas e pela relação das pessoas com a música.
Um dos principais créditos que você tem foi o de ser o primeiro a misturar música eletrônica com rap nacional, especialmente na produção do som do grupo Z'África Brasil. Como surgiu essa idéia?
DJ Periférico. Esse crédito, se há, não é apenas meu, mas de todos os que estavam envolvidos. Principalmente Autoload, Z’África e Embolex. Naquela época, e não faz tanto tempo assim, era tudo mais segmentado. Tinha os clubbers, e tinha os manos. Quem gostava de rap tinha raiva de clubber, e mesmo dentro da música eletrônica era tudo mais segmentado. Em noites de drum and bass só se via MC cantando em inglês. Comecei a levar o Z’África para festas de eletrônica, techno. Eles piravam. E as pessoas piravam com eles. Até que nós começamos as nossas próprias festas, primeiro a “Nação Quebrada”, depois a “EMBOLEX – WHITEOUT”. Essas noites juntavamclubbers, VJs, rappers, publicitários, atores, patricinhas. Dava trabalho, mas era muito gratificante.
Quantos projetos paralelos você mantém hoje?
DJ Periférico. Faço parte do coletivo audiovisual EMBOLEX desde o início. Tem o Telepathique, o Boogie Central com o DJ Benjamin. Toco com o Mauricio Fleury e a Luisa Maita. O estúdio toma boa parte do meu tempo.
Quando sai o segundo trabalho com a cantora Mylene?
DJ Periférico. Vai sair este ano. Sai um single agora que já está pronto, e o álbum mais para o segundo semestre.
Quais projetos e lançamento você planeja para 2010?
DJ Periférico. Estou trabalhando na música de um espetáculo de dança inspirado em Virginia Woolf que vai estrear em junho. Um single e um álbum do Telepathique nos US/Canadá. Estou fazendo a direção musical do show de lançamento do primeiro álbum da cantora Luisa Maita, marcado para fim de maio. Em junho sai o remix para o Faze Action que eu fiz com o Dj Benjamin, pelo Faze Action Records. Está sendo lançado agora o álbum da cantora Nô Stopa, que produzi no ano passado. Um projeto grande com Embolex, ainda sem nome. Tem também dois projetos de música para teatro e uma minissérie que ainda não estão confirmados.
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