Céu no G1 - Globo.com
By urbanjungle on Aug 20, 2009 | In Ceu

No ritmo entorpecente da terra de Bob Marley, a cantora Céu desliza à vontade. Cinco anos depois de estrear em disco, a paulistana conquista sem pressa o seu espa?o entre as maiores artistas de sua gera??o. “Vagarosa”, seu segundo trabalho, chega às lojas no final do mês, mas a músicas do repertório já s?o entoadas pelo público nos shows, como aconteceu em uma apresenta??o em S?o Paulo na semana passada.
Recém-chegada de uma miniturnê nos EUA que passou por Nova York, Seattle, S?o Francisco e Los Angeles, ela se preparada para uma série de apresenta??es pelo Brasil e na Europa. Lá fora, a receptividade n?o poderia ter sido mais calorosa: ingressos esgotados e críticas positivas em jornais como o “The New York Times”.
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“A turnê foi interessante, porque eu n?o tinha altas expectativas. Esse é um disco extremamente verdadeiro comigo mesma, com o tempo que eu levei e com coisas que eu fiz. Estou fazendo o que me faz sentido, e n?o porque tenho expectativas a superar. Minha história só faz sentido se eu continuar nesse lugar, o da honestidade comigo mesma. Se eu sair desse lugar, n?o vai dar certo”, diz a artista, em entrevista ao G1.
“Fiquei feliz em ver que o público é muito interessado em música brasileira, e de saber do interesse dos jornalistas pelo que está acontecendo em S?o Paulo”, conta ela, confessando n?o ter se importado com o vazamento de seu disco na internet antes do lan?amento. “Ficaria chateada se tivesse caído na rede uma vers?o de baixa qualidade.”
Produzido pela própria Céu com a colabora??o de Gui Amabis, Gustavo Lenza e Beto Villares (produtor do álbum de estreia da cantora), “Vagarosa” reúne músicos que já trabalhavam juntos - como Pupillo e Curumin (bateria), Lucas Martins e Dengue (baixo), Guizado (trompete), DJ Marco (scratches), Fernando Catatau (guitarra), Rodrigo Campos (cavaco, pandeiro, tamborim), entre outros ? além de todas as referências musicais que a artista já vinha trabalhando - como o reggae - só que desta vez, talvez, de uma maneira “menos digerida”, nas palavras dela.
“N?o acho que o disco seja uma mudan?a de direcionamento, mas ele é mais ousado. ? uma faceta mais corajosa do primeiro. Talvez n?o seja o que as pessoas esperam, mas essa parte eu prefiro que o público me conte”, fala. “Esse álbum tem elementos mais org?nicos, menos beats. Eu queria que a press?o viesse pela simplicidade, pela crueza.”
Céu conta que gosta de privelegiar as melodias em detrimento das harmonias, e que tem um jeito muito peculiar de compor. “Eu componho a partir de um arranjo, às vezes tem uma linha de baixo na minha cabe?a, eu pego o gravador e aí come?o todo o trabalho”, diz ela, admitindo que as letras também amadureceram.
Pingos nos 'is'
“Com certeza a maternidade me influenciou. Muita coisa mudou depois do primeiro disco. As dificuldades est?o aí para a gente aprender. Ent?o eu fui escrevendo e a vida me inspirou. Quando você faz uma filha, você pensa ‘eu sou capaz de muita coisa’. Os pingos nos 'is' v?o para os seus devidos lugares. Talvez no primeiro disco eu ainda estivesse em dúvida sobre o que eu seria capaz de fazer. Já o segundo reafirma quem eu sou.”
Apreciadora das “coisas antigas”, a cantora fala da satisfa??o em trazer à tona elementos tribais e outros ingredientes que a influenciam. “N?o enxergo muito essa coisa de que se tirar a produ??o, n?o existe can??o. Para mim, tem muito samba no disco, mas talvez n?o seja algo t?o digerido. Música é liberdade, é uma coisa para ser mexida. Ela é um produto e eu convivo bem com isso.”

“Claro que n?o foi sempre assim”, continua. “Eu já me incomodei com os rótulos. Quem entra na música por amor, sem planos de fazer carreira, ficar rica e famosa, se depara com esse questionamento. Vai ser embalado, receber um nome e virar algo palpável. Mas a essência é a liberdade. N?o vejo problema nenhum em ouvir Nelson Cavaquinho, que está ligado diretamente a Nina Simone, que está ligada a Betty Davis, que está ligada a Clementina de Jesus, Clara Nunes. Para mim, é tudo a mesma coisa.”
A cantora americana de funk Betty Davis, aliás, serve de inspira??o para a psicodélica “Espa?onave”, com participa??o do guitarrista Catatau (Cidad?o Instigado). “A letra fala sobre a necessidade de se conectar com a natureza, de voltar para a nave m?e. O Catatau ouviu a música, curtiu e tocou guitarra. Foi o primeiro indício de que o disco estava realmente existindo”, diz.
Já “Grains de beauté” remete diretamente ao álbum “Histoire de Melody Nelson” (1971), do francês Serge Gainsbourg. “Descobri que na Fran?a eles chamam as pintas de gr?os de beleza. Como eles s?o elegantes... Gosto muito desse disco e essa música é uma referência bem explícita a ele.”
O cantor Luiz Melodia personifica a figura do homem vira-lata no samba de mesmo nome. “? a vibe dele, me passa essa sensa??o. Ele me inspirou a fazer esssa letra sobre paix?es avassaladoras. Deram a ele um rótulo de maldito, mas eu n?o acho isso. Ele é um cara underground, uma das minhas vozes masculinas preferidas. Um dia, quando fizemos um show juntos, tomei coragem e o convidei para cantar no meu disco.”
Outro ponto alto de “Vagarosa” é “Bubuia”, que tem a participa??o do trio formado por Céu e as cantoras Thalma de Freitas e Anelis Assump??o - apelidado de Negresko Sis. “Bubuia é uma maneira do norte de falar borbulha. O sentido é de seguir a vida leve, continuar, n?o importa o tamanho da onda. A borbulha faz isso. Na música, cada uma ficou com um verso. A gente gosta dessa coisa de ser backing vocal, fazer coro, como numa ciranda. A letra fala sobre a maneira de ir contornando. ? uma filosofia ‘deixa a vida me levar’ total.”| « Céu - Novo site no ar! | Guizado no "Era Só o Que Faltava" em Curitiba » |